quinta-feira, 19 de maio de 2011

O desafio de não deixar pegadas

Maior fabricante de celulares do mundo, a Nokia está à frente de uma disputada corrida pela reciclagem de equipamentos descartados

-  A  A  +
Por Ursula Alonso Manso
Revista Exame - 26/03/2008
Poucos aparelhos eletrônicos se tornaram tão descartáveis quanto o celular. Hoje, cerca de 3 bilhões de pessoas -- o equivalente à metade da população do planeta -- têm uma linha móvel. Em média, essa multidão troca o aparelho em até dois anos. O descarte acelerado desses equipamentos representa um dos problemas ambientais mais graves da atualidade. Uma pesquisa da americana ReCellular, uma das maiores recicladoras de celulares do mundo, mostra que mais de 100 milhões de aparelhos são descartados por ano. Esse volume equivale, considerando o peso médio de 130 gramas por celular, a 13 000 toneladas de placas, circuitos, plásticos e baterias com substâncias tóxicas como PVC, além de metais pesados como chumbo, lítio e cromo. Com a crescente pressão de ONGs e dos próprios consumidores, a capacidade de não deixar (ou pelo menos diminuir) essas pegadas no meio ambiente se tornou a mais nova base de competição entre as grandes fabricantes de celulares. Além de lançar o modelo mais fino, leve, colorido, funcional e inovador, essas empresas agora correm para criar os equipamentos mais verdes do mercado -- que consomem menos energia e possuem menos materiais tóxicos e mais peças recicláveis.

Por trás dessa corrida existe uma mudança radical na maneira como as empresas pensam e estruturam seu negócio -- desde a concepção dos produtos até a criação de novos caminhos para trazê-los de volta, num movimento conhecido como logística reversa. A pioneira nesse campo é a finlandesa Nokia, maior fabricante de celulares do mundo, com vendas de 57 bilhões de dólares em 2007. O pontapé inicial em seu programa de reciclagem aconteceu em 1995, com uma então tímida iniciativa de coletar aparelhos em lojas de assistência técnica -- antes mesmo que existisse uma legislação a esse respeito. (A fabricante de celulares americana Motorola, por exemplo, iniciou a coleta de aparelhos usados em 2004.) Hoje, até 80% de um celular Nokia pode ser reciclado, 15 pontos percentuais acima da atual norma da União Européia, a mais rigorosa e avançada do mundo. A empresa estima que é responsável pela coleta de 2% dos celulares de todas as marcas descartados anualmente -- algo como 2 milhões de aparelhos (parte do material reciclado é reaproveitada pela própria empresa e o restante é vendido a terceiros). Num levantamento trimestral realizado pela ONG Greenpeace desde agosto de 2006, a Nokia foi a primeira colocada em todas as edições. (A única exceção ocorreu na pesquisa realizada em dezembro de 2007, na qual a fabricante perdeu a liderança para as concorrentes Sony Ericsson e Samsung porque a ONG não conseguiu devolver aparelhos da marca em cinco países: Argentina, Filipinas, Índia, Rússia e Tailândia.) "É um movimento que envolve diversas áreas da empresa e concentra cada vez mais esforços", diz o finlandês Markus Terho, diretor mundial de relacionamento ambiental da Nokia. "O levantamento do Greenpeace nos motivou a fazer uma auditoria para avaliar padrões e definir as necessidades de treinamento."
Uma das etapas mais críticas para fazer a estratégia verde dar certo é uma preocupação absolutamente inédita para essas fabricantes -- convencer os consumidores a devolver os aparelhos em vez de eles simplesmente colocá-los na gaveta ou jogá-los no lixo. "Trata-se de uma variável fundamental que está fora dos muros das empresas e por isso é mais difícil de controlar", diz André Carvalho, professor da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, especialista em logística reversa. A Nokia não divulga o investimento para estimular o retorno de aparelhos, mas hoje realiza campanhas em países da Europa, da América do Norte e da Ásia. Mais recentemente, a companhia intensificou a atenção aos países asiáticos, uma das regiões do mundo onde o consumo de aparelhos mais cresce.

Nenhum comentário:

Postar um comentário